Uma conversa sobre roupa, moda e história no RN
Natal/RN, 01 de setembro de 2026. Tribuna do Norte. O jornalista Tádzio França pergunta sobre a “História da moda e da roupa no Rio Grande do Norte”, livro de Gustavo Sobral com lançamento em breve. Sobral responde.
As perguntas retomam aspectos da pesquisa e do livro: a ideia do trabalho; a procura dos vestígios de uma história que ainda não havia sido contada; personagens que apareceram pelo caminho; e o que a roupa pode revelar sobre a sociedade potiguar. Um making of da matéria que fica como entrevista.
O que motivou você a realizar essa pesquisa, e quais foram os desafios encontrados para obter esse material?
Tudo isso se deve a um evento recente que aconteceu na cidade do Natal, o Ginga Moda RN. Surpreendente como a indústria da moda e do vestuário está hoje aqui consolidada. Ficou a pergunta: e como era antes?
Também é parte da minha trajetória escrita dedicada aos temas locais de quem já escreveu uma história da cidade do Natal, sobre arquitetura moderna potiguar, a crônica e o jornalismo, entre tantos outros temas.
O desafio foi o maior, pois fui procurar e não encontrei nenhum escrito amplo e geral, informativo e conciso que trouxesse um panorama da história da roupa e da moda por aqui.
Então, sem referências diretas, sai em busca dos vestígios. Fui aos livros de história geral do RN, aos livros de memória, à crônica do Rio Grande do Norte, aos jornais e voltei aos meus próprios escritos como a minha história da cidade do Natal e a história do jornalismo. É surpreendente como tudo está lá, basta prestar atenção.
Em que medida fatores como classe social, gênero, religião e posição econômica influenciaram a maneira como diferentes grupos sociais se vestiam ao longo do tempo?
O mundo ontem não é diferente do mundo hoje. Essa distinção já veio nas caravelas com os portugueses imponentes nos seus gibões, sobrevestes e capas; e nos soldados holandeses andrajos, pagando fortunas pelas roupas que vestiam. Chama atenção Maria Luiza da Conceição, liberta, que vivia de fazer sapatos e vendas, e tinha no seu guarda-roupa as melhores peças. Entre elas, um vestido de alpaca. Havia também as exigências do dress code. Era um crime, contou Cascudo, ir a um baile no século XIX sem casaca. E teve gente que foi sem. Houve sempre a roupa mais simples e confortável para se vestir em casa, por exemplo; e uma mais alinhada para ir à missa. A roupa é um código. Mas também havia quem seguia os modismos, quem não ligava para moda e quem fazia a sua própria moda.
Qual foi o papel das alfaiatarias na transformação dos hábitos de vestir dos potiguares e na construção de uma cultura de moda no estado?
Os alfaiates começaram timidamente a oferecer os seus serviços pelos jornais e quando menos se espera já temos um mercado bem servido, com lojas oferecendo uma infinidade de tecidos e produtos já prontos, e, claro, as valorizadas peças sob medida. Havia até alfaiates especialistas, por exemplo, em roupas para crianças. O comércio começa a investir na apresentação dos seus produtos e o Centro Elegante, em Natal, apronta uma vitrine que foi uma sensação. Os jornais passam a criticar o modismo das saias-balão, começam a aparecer as máquinas de costura. Foi uma revolução.
A pesquisa encontrou personagens, histórias ou peças de vestuário que surpreenderam você e que considera especialmente importantes para compreender essa trajetória no vestir?
A história da roupa e da moda é uma história viva e o livro está povoado por histórias de vidas diversas. Um dos marcos da colonização é justamente a roupa e a ausência dela. Oswaldo de Andrade fez bem notar: fosse uma manhã de sol, o indígena teria despido o português. Eloy de Souza conta que no século XVIII, houve aqui uma moda de andar “casacalmente vestidos”. Ninguém tirava a casaca por nada, nem para ir de tamancos comprar o peixe.
Também é uma história de coisas que passaram, como o uso pelas mulheres do tapa-missa. Espécie de pente para prender os cabelos. O da baronesa de Ceará-Mirim está no Instituto Histórico para quem quiser ver. Aliás, e infelizmente, não temos um museu da roupa e da moda, não temos (ainda) um acervo de vestuário no Rio Grande do Norte disponível para pesquisa e consulta. Por outro lado, temos imagens. Os trabalhos de Eckhout e Frans Post, mesmo com ressalvas, podem nos dar uma ideia da vestimenta no século XVII, sobretudo como o colonizador passou a vestir o indígena e os escravizados; assim como uma pintura à óleo do Barão do Ceará-Mirim portando a sua farda de coronel da Guarda Nacional, nos permite recompor a sua vestimenta.
A História costuma a esquecer da roupa como um elemento importante, esse é um sinal de, mesmo com uma cadeia de moda hoje pujante, não termos uma história geral da moda no RN. A sorte que houve historiadores como Câmara Cascudo que, mesmo não tendo escrito nada específico sobre a roupa e a moda, deixaram de anotar como se vestia o potiguar. Outro contribuinte da história são as memórias. Magdalena Antunes nos deixou um capítulo importante neste sentido.
Escrever este trabalho foi uma busca dessas agulhas no palheiro, encontrar uma pequena descrição, um comentário, uma cena. Para isso, é preciso ter um amplo olhar sobre a história e a cultura do Rio Grande do Norte e sair por todos os cantos em busca de vestígios. Seja no museu do Instituto, nos livros de história, nos anúncios de jornal. Mesmo assim não encontrei como se vestia Nísia Floresta, nem como se vestiu o afamado cangaceiro Jesuíno Brilhante. Dois personagens que fazem falta no livro.
Até o século 19, as pessoas de posse deixavam roupas como herança. O que fez isso mudar?
O valor. Quando a roupa passa a ser abundante e comum, quando os tecidos deixam de ser escassos e o acesso passa a ser mais facilitado, esse hábito deixou de existir.
Como foi a transição dos tecidos pesados e cortes europeus para roupas mais adequadas ao nosso clima?
A história da roupa e da moda é também a história do tecido. Na pesquisa, me deparei com uma série surpreendente de tipos de tecido e foi preciso também estudar e ler sobre isso.
A roupa, como tudo na vida, é também algo que passa por mudanças, e a tecnologia é uma aliada nesse processo. As roupas de banho, por exemplo, se a princípio não havia tecidos apropriados, a indústria tratou de desenvolve-los.
O que há é uma transição lenta e muitas vezes imperceptível que atende também às questões de uso. Se Beatriz Menezes, esposa do capitão-mor do Rio Grande, no século XVII, vestia roupas pesadas europeias em pleno calorão potiguar, porque era o que havia e o que se esperava de uma mulher na sua posição; no começo do século XIX, o doutor Barata só vestia algodão brasileiro. Não há uma regra. Tudo é questão de tempo.
Foi assim que andei séculos para entender que antes de uma história da moda tivemos uma história da roupa. Assim, apresento uma história da roupa e da moda no Rio Grande do Norte, informativa, narrativa, concisa e geral, até 1899.
No próximo livro, pretendo adentrar no século XX e já começo com algumas perguntas: quando começaram a aparecer as primeiras mudanças no vestir e no usar da moda que se praticava no século XIX? Quando o potiguar passou a tomar banho de mar e a vestir roupa de banho para isso? Quem foi o nosso primeiro dândi? E a presença norte-americana em Natal nos anos 1940, realmente trouxe mudanças no vestuário ou na moda ou essas mudanças já haviam sido adotadas? É a história que nos trará estas respostas.
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