“Dress Code” da História
Escritor lança livro “História da roupa e da moda no Rio Grande do Norte”
Redação Tribuna do Norte, Viver, 17 de setembro de 2026
A evolução da vestimenta é capaz de contar mais histórias do que o espelho pode mostrar. Foi o que motivou o escritor e pesquisador Gustavo Sobral a trabalhar na escrita do livro “História da roupa e da moda no Rio Grande do Norte”. A obra vai trazer o primeiro mapeamento amplo sobre o vestuário potiguar, cruzando séculos de história desde relatos antigos sobre trajes de soldados holandeses e sertanejos, até o surgimento das alfaiatarias e o cenário da indústria atual. O livro será lançado ainda este ano, garante o autor.
Gustavo já escreveu sobre a história da cidade do Natal, sobre sua arquitetura moderna, as crônicas e o jornalismo, mas o assunto só chegou ao guarda-roupa quando ele participou de um evento de moda local, o Ginga RN, e ficou a pensar sobre o que havia antes de tudo aquilo. A pesquisa foi um desafio, pois, segundo ele, não encontrou nenhum escrito amplo, informativo e conciso que trouxesse um panorama histórico sobre o assunto.
Então, sem referências diretas, o escritor saiu em busca dos vestígios. “Fui aos livros de história geral, aos livros de memória, à crônica do RN, aos jornais e voltei aos meus próprios escritos como a minha história da cidade do Natal e a história do jornalismo. É surpreendente como tudo está lá, basta prestar atenção”, disse. A pesquisa é algo inédito na historiografia potiguar.
A pesquisa de Gustavo Sobral demonstrou que fatores como classe social, raça, gênero, religião e posição econômica, costumavam ditar de forma essencial o figurino do potiguar, desde o Brasil colonial até 1899. “Essa distinção já veio nas caravelas com os portugueses imponentes nos seus gibões, sobrevestes e capas; e nos soldados holandeses em andrajos, pagando fortunas pelas roupas que vestiam”, diz.
Dress code
Um caso chamou atenção de Gustavo em suas pesquisas: ele se deparou com Maria Luiza da Conceição, uma ex-escravizada que vivia de fazer sapatos e vendas, e tinha no seu guarda-roupa as melhores peças. Entre elas, um vestido de alpaca.
Havia também as exigências do “dress code”, ressalta o pesquisador. “Era um crime, contou Cascudo, ir a um baile no século XIX sem casaca. E teve gente que foi sem. Houve sempre a roupa mais simples e confortável para se vestir em casa, por exemplo; e uma mais alinhada para ir à missa. A roupa é um código. Mas também havia quem seguia os modismos, quem não ligava para moda e quem fazia a sua própria moda”, diz.
Roupa e moda são história viva – mesmo que alguns cortes e tecidos tenham saído de moda. Gustavo afirma que um dos marcos da colonização é a roupa e a ausência dela. Eloy de Souza contou que no século XVIII, houve em Natal a moda de andar “casacalmente vestidos”. “Ninguém tirava a casaca por nada, nem para ir de tamancos comprar o peixe”, brinca.
É também uma história de coisas que passaram, como o uso do “tapa-missa” entre as mulheres, uma espécie de pente para prender os cabelos. “O da baronesa de Ceará-Mirim está no Instituto Histórico do RN, para quem quiser ver”, ressalta. Gustavo lamenta não haver no RN um museu de vestuário, mas há ao menos as pinturas e gravuras de séculos passados.
A história da roupa e da moda é também a história do tecido. Gustavo conta ter se deparado com uma série surpreendente de tipos de tecido e foi preciso também estudar sobre isso. “A roupa, como tudo na vida, é algo que passa por mudanças, e a tecnologia é uma aliada nesse processo. As roupas de banho, por exemplo, se a princípio não havia tecidos apropriados, a indústria tratou de desenvolve-lo”, explica.
“Os trabalhos de Eckhout e Frans Post, podem nos dar uma ideia da vestimenta no século XVII, sobretudo como o colonizador passou a vestir o indígena e os escravizados; assim como uma pintura à óleo do Barão do Ceará-Mirim portando a sua farda de coronel da Guarda Nacional, nos permite recompor a sua vestimenta”, lembra.
Para Gustavo, a história costuma esquecer da roupa como um elemento importante. “A sorte é que houve historiadores como Câmara Cascudo que, mesmo não tendo escrito de forma específica sobre a roupa e a moda, não deixaram de anotar como se vestia o potiguar. Outro contribuinte da história são as memórias. Magdalena Antunes nos deixou um capítulo importante neste sentido”, afirma.
Confira a matéria no site do jornal aqui.
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