Iconografia Baiana

Livro da editora Capivara, organizado por Pedro Corrêa do Lago, apresenta a Bahia em pinturas a óleo, desenhos e mapas da coleção Abubakir

A iconografia baiana já foi objeto de diversas publicações. Um álbum de 1951, fruto das comemorações dos 400 anos de Salvador; e As cidades do Salvador e Rio de Janeiro no século XVIII, livro de 1963, por Gilberto Ferrez.

O quarto volume de Nordeste histórico e monumental, de Clarival do Prado Valladares, publicado em 1991; Iconografia baiana do século XIX na Biblioteca Nacional, 2005, coordenado por Pedro Corrêa do Lago; e Salvador: uma iconografia através dos séculos, pela Biblioteca Nacional, 2015, trabalho de Fernanda Terra, Francisco Senna e Daniel Rebouças.

Agora é a vez de Iconografia baiana: na coleção Flávia e Frank Abubakir (editora Capivara, 2024, 320p.), uma organização de Pedro Corrêa do Lago, patrocínio da Unipar pela Lei Rouanet de incentivo à cultura e uma realização Zucca Produção e Capivara.

Colaboraram com a pesquisa e redação diversos pesquisadores, entre historiadores, arquitetos, restauradores, e são eles: Daniel Rebouças, Dilson Rodrigues Midlej, Francisco Soares Senna, João Dannemann, Pablo Iglesias Magalhães, Rafael Dantas e Sávio Queiroz Lima.

O livro apresenta quadros a óleo, aquarelas, cadernos de desenhos e de aquarelas (sketchbooks), desenhos e gravuras avulsas e independentes, livros ilustrados com gravuras e mapas, mapas manuscritos e mapas impressos avulsos. Acompanha ainda o conjunto, ao final, as referências bibliográficas e um útil índice onomástico.

As pinturas a óleo representam cenas urbanas e marinhas, imagens do cotidiano de trabalho, retratos, e muitas paisagens e panoramas de Salvador. Uma beleza as representações do Solar do Unhão, ícone da cidade.

Um óleo interessante é a A Família brasileira na praia de Itaparica (1863) do austríaco Joseph Selleny (1824–1875).

A cena é diante de um casebre na mata, com porcos e galinhas, patos, umas bananeiras, com crianças e a lida diária.  Entre as personagens, um homem de camisa azul posa com um cesto na cabeça (seria de frutas?) e uma mulher cuida de duas crianças e parece que amamenta uma terceira.

Já as aquarelas e os desenhos foram mais usuais, pois, explica o historiador Daniel Rebouças: desenhar fazia parte da formação básica do Exército e da Marinha e das pessoas instruídas. Panoramas, vistas, os temas do óleo, aqui se repetem.

A aquarela de Pallière (1823–1887) do Mercado na Bahia, 1862, faz lembrar os Debret que conhecemos. É uma cena do cotidiano: uma senhora branca, distintamente vestida, portando uma sombrinha, diante de uma vendedora negra. Essa com colares, brincos, turbante e um vestido branco, outras vestidas a mesma moda estão por perto comercializando os seus produtos.

Já os sketchbooks são especiais, pois é um tipo de material raro. Os da coleção, além de raros, são inéditos e, segundo o historiador, ampliam o repertório visual que se tinha não só sobre a Bahia, mas também sobre o Brasil dos oitocentos.

Ao todo são oito caderninhos destes com panoramas, paisagens e vistas. Vistas a perder de vista, encantadoras. Uma beleza de ver. Na vista de casa ou forte com militares na frente, os soldados parecem soldadinhos de chumbo nas suas vestimentas azuis portando os seus armamentos.

Segundo Rebouças, pelo tom azul do fardamento, é possível que o grupo seja do chamado Regimento de Pardos, formado por pessoas não brancas em fardamento azul-ferrete, com golas e correame brancos.

De diferente, no que tange à tipologia, é a presença da planta baixa de uma casa senhorial do começo do XIX, com a distribuição dos cômodos, móveis.

Também interessante um registro do transporte de pessoas, coisas, alimentos por canoas pela baía de Todos-os-Santos. Muito mais prático e útil que se aventurar por estradas precárias. Canoas que foram para muitos libertos o trabalho livre.

Outro aspecto que documenta o trabalho é o desenho de Thomas B. Cook: Mulher em frente à fonte d’água. Cabia às mulheres negras comercializar a água de beber retirada das fontes pelas ruas da cidade.

Não se pode deixar de mencionar a inglesa Maria Graham (1785–1842) e o seu desenho Igreja e convento de Santo Antônio da Barra, considerado uma das singularidades da coleção.

Entre mapas manuscritos e plantas, um dos destaques, e Correa do Lago já apregoa no prefácio, é o raríssimo exemplar do grande mapa de Marcgraf, de 1647; e, descoberta recente: o plano da cidade da Bahia, de Joos Coecke, de 1624.

A retomada de Salvador pela Jornada dos Vassalos, por exemplo, é um dos mais detalhados mapas de Salvador do século XVII.

São estas e outras pérolas, portanto, que fazem a coleção primorosa dos Abubakir, agora disponível em livro no catálogo de excelência da editora Capivara.

Imagem: capa, divulgação. Fonte: Editora Capivara.

Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito, advogado, e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Autor de diversos artigos e livros, disponíveis no seu site pessoal gustavosobral.com.br.

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Gustavo Sobral

Sobre o autor: Gustavo Sobral

Gustavo Sobral é jornalista e escritor, tudo que escreve, rabisca e publica está disponível no seu site pessoal gustavosobral.com.br